sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

“Eu sou bicha sim, e daí?” Documentário faz sucesso no Youtube


Documentário traz depoimentos de jovens homossexuais e ganha mais de 200 mil visualizações no YouTube

Seis jovens, a convite de um diretor, se reuniram para falar sobre sua “bichisse”.  O Documentário”, lançado há uma semana na internet e que já conta com mais de 200 mil visualizações no YouTube. 
“Esse filme tem demonstrado que estamos muito carentes de materiais que discutam as nossas vivências. Apesar de inteligente e sensível, esse é um documentário muito simples, de 38 minutos, mas as pessoas estão devorando o filme. As histórias são muito diferentes, apesar de partirem de um lugar comum, mas falam de perspectivas distintas e, por isso, acabam atingido muitas pessoas”, comenta Bruno Delgado, um dos depoentes. 

Apesar do sucesso, o filme nasce de um episódio triste e violento sofrido por Marlon Parente, diretor do documentário. Ele e alguns amigos que andavam de mãos dadas pela rua foram abordados por um homem que os ameaçou com uma arma. À violência sofrida, ele respondeu com reflexões, humor e histórias compartilhadas a partir de revelações de sentimentos íntimos. 
Marlon tem 23 anos, é estudante universitário e não tinha nenhuma experiência no cinema, mas, ainda assim, se arriscou no audiovisual. “Fiz essa escolha primeiro porque as bichas são muito bonitas”, brinca o estudante de publicidade. “Precisava de algo visual que chamasse a atenção para histórias, que despertasse a atenção para o que eles estão falando, para forma como estão falando”, conta.
 
Sem ligar para a falta de experiência, Marlon pegou uma câmera emprestada com um amigo da agência publicitária onde trabalha e comprou um microfone de R$ 10 – este é custo total da produção, aliás). Fuçou em manuais e vídeos do YouTube para aprender a manejar a câmera e gravou tudo à luz do dia na sala de sua casa porque não havia recursos para equipamentos de luz. “Também não sabia editar. Baixei um software e meti a cara. Eu precisava transformar o episódio de violência que vivi para falar para as pessoas que ser bicha é também um ato político”, explica.
Para o filme, ele convidou alguns amigos com quem partilhava algumas dessas experiências de ser gay e afeminado. “Quis conversar com quem eu achava que era bem resolvido e pudesse dizer: eu sou bicha, sim e daí?. Não é um filme que trate apenas da violência e dos dramas, apesar de passar por isso. Mas um relato que diz da liberdade de ser bicha, de ser o que a gente quer ser, além de assumir uma postura de resistência, sem violência”, diz Marlon que preferiu não aparecer no filme e assumir o lugar da direção. “Eu também tenho a minha história para contar, mas me senti representado em todos eles. São seis depoimentos que contam a história de outras dezenas de meninos”. 
 
A afirmação de ser bicha, explícita nos depoimentos e no nome do documentário, revela o propósito desses garotos. “Queremos converter algo que é pronunciado como um xingamento em algo a nosso favor. Não é um filme só para gay porque ele fala de respeito, amor e de liberdade para a pessoa ser o que ela quiser ser”, afirma Marlon. 
 
Além da sexualidade, o documentário tenta quebrar não apenas com os sentidos dados à palavra “bicha”, mas à normatização heterossexual do comportamento humano que, por vezes, começa dentro de casa.
 
No filme, Ítalo Amorim, por exemplo, pede perdão à mãe por estar ali falando de sua história. Ao contar para ela sobre sua homossexualidade, Ítalo foi acolhido, embora tenha ouvido da mãe o pedido para que ele não levantasse bandeiras e não se revelasse para os outros enquanto gay afeminado. “É possível entender essa proteção materna como uma forma de amor porque realmente é. Mas é também a reprodução de um discurso machista que diz que o menino tem que se portar como menino. Não pode gesticular demais, tem que falar grosso porque menino não pode estar vinculado à ideia do feminino. E o filme tenta refletir sobre essa heteronormatividade”, observa Ítalo. 
 
Apesar da repercussão positiva e carinhosa que o filme tem recebido, Marlon já foi bloqueado do Facebook duas vezes. “Não estão aguentando ver tanta bicha nas redes sociais”, conta. Mas entre as denúncias no Facebook, Marlon já recebeu notícias de professores que estão mostrando o filme para seus alunos, de pais que chamam seus filhos para verem o documentário juntos e de jovens que estão aproveitando para dialogar com sua família e “sair do armário”, como diz Marlon.


João Pedro, o Peu
“Todas as gays devem botar a cara no sol e dizer que é bicha mesmo. Você não está sendo você? Está maltratando alguém?”
João Pedro, bicha e preta
“Eu não vou aceitar que uma pessoa use essa palavra que eu assimilo como uma coisa positiva de uma forma negativa pra me ofender”
Igor Ferreira, drag queen
“Quando eu me assumi para os meus pais, eu tinha 15 anos e não fazia nada que uma pessoa gay fazia porque eu tinha muito medo que eles descobrissem.”
Italo Amorim
“Ninguém está ligando pra gente. Quando levantamos uma bandeira, estamos protegendo um ao outro.”
Bruno Delgado
“Com 16 anos, eu contei para minha mãe que eu era bicha. Falei para ela que eu estava namorando e que isso estava me fazendo muito bem.”
Orlando Dantas
“O povo fala: ‘você pode ser gay sem ser bicha. Pra que isso? Para chamar a atenção?’ Não! Se vivermos nos enquadrando, não vamos ser livre nunca.”




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